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terça-feira, agosto 16, 2005

Reencontro com meus pais 

Boletim das Terras da Rainha

Londres não só revelou-se um universo cultural inimaginável à mim como também o foi uma pausa importante para a auto-reflexão. Aqui, não mais no habitual mundo contidiano em que estava inserido, longe de tudo e de todos, encontrei me num cárcere interior...

Ao desembarcar nestas terras não era mais biólogo, tal qualificação profissional não era válida por aqui. Não podia mais contar com o apoio de meus bons amigos, uma nova rede de relacionamentos levaria algum tempo até se formar. Mas principalmente, não mais tinha uma família, e assim, fiquei sem referência de mim mesmo.

Durante a minha adolescência, em busca de uma identidade, vi a hostilidade entrar em minha casa e tornar-se quase uma regra na relação pais/filho. Aos poucos o diálogo entre as partes tornou-se repleto de tensão e acumalaram-se mágoas de ambas as partes.

Este foi o sentimento que herdei do processo de formação de minha personalidade para ingresso na vida adulta.

Em Londres, submetido à condições diferentes, sendo obrigado a conviver, trabalhar e morar com gente estranha passei a reavaliar os meus conceitos no que diz respeito aos meus pais. Passei a dar valor para esta relação e enxergar que as soluções eram simples, mas jamais havia lhes dado a respectiva chance.


Tower Bridge.

Hoje, ao despedir me de meus pais no aeroporto, pela primeira vez enxerguei-os diferentemente. Foi como tê-los reencontrado para o início de uma nova fase desse relacionamento que fora selado pelas lágrimas da despedida.

Alguma coisa mudou no silêncio destes últimos cinco minutos em que estivemos juntos e que esteve presente na cumplicidade dos olhares!

O isolamento e a distância moldaram aquele antigo sentimento amargo. Guardo comigo a doce memória de ir "trabalhar" com meu pai e fazer a tradicional sesta com minha mãe após o almoço, durante a minha tenra infância!

Pais e Filhos
(Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)

Estátuas e cofres e paredes pintadas
Ninguém sabe o que acoteceu
Ela se jogou da janela do quinto andar
Nada é fácil de entender
Dorme agora é só o vento lá fora
Quero colo vou fugir de casa
Posso dormir aqui com vocês?
Estou com medo tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três
Meu filho vai ter nome de santo
Quero o nome mais bonito
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade não há
Me diz: porque que o céu é azul?
Me explica a grande fúria do mundo
São meus filhos que tomam conta de mim
Eu moro com a minha mãe mas o meu pai vem me visitar
Eu moro na rua não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais
Eu moro com meus pais
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade não há
Sou uma gota d'água, sou um grão de areia
Você diz que seus pais não entendem
Mas você não entende seus pais
Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser quando você crescer

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