terça-feira, junho 08, 2004
Cupinzeiro
"Dizem que quando os cupins abandonam o ninho, as cobras sobem em cima dele e atraem as vacas para poder mamar nelas. A vaca fica ‘doida’ para a cobra mamar e todos os dias, na mesma hora, ela vem, ficando bem em cima do cupim, onde a cobra está enrolada e somente com a cabeça para cima”
(Marconi, 1963)
"Quando à flor dágua do céu
se encrespa a curuca das estrelas faiscantes,
os cupinzeiros soltam
As esquadrilhas das aleluias,
Que semeiam os campos
De pequeninas asas mutiladas...”
(Constantino, 1927)
No entanto, o trecho que destaco como mais significativo é também o mais técnico. Devido a minha formação acadêmica observo com maior interesse científico as possíveis evidências nele apresentadas.
“Os térmitas [cupins] podem ser a resposta aos problemas de mineração da Rodésia, segundo uma teoria apresentada por Bill West, um mineiro rodesiano. Depois de vários anos de pesquisas, ele tem razões para acreditar que os térmitas podem indicar, acuradamente, os picos de minerais enterrados dezenas de metros abaixo da superfície do solo. Os térmitas não podem abrir passagem na rocha dura; assim, acredita West, que eles abrem passagem para a água nas fissuras, a fim de conservar úmido seu cupinzeiro. O material escavado por esses insetos é depositado na superfície do cupinzeiro e uma amostra deste dará um valor médio do teor mineral de uma área considerável. Jamais foram feitos prospectos para minerais de valor em enormes áreas da Rodésia, por causa do bloqueio das camadas de areia ou pedregulhos do Kalahari. Amostras de campo, de mais de 3000 cupinzeiros, foram coletadas pelo governo, que está interessado em aumentar a produção vacilante de minerais do país. Depois de mapear e examinar ao microscópio as amostras, foram feitos testes de perfurações a diamante. Há uma estreita correlação entre os lugares onde os verdadeiros troncos de minerais foram encontrados e as amostras de cupinzeiros que indicaram a presença de minerais.”
(O Estado de São Paulo de 26 de Novembro de 1971)
Os melhores momentos que vivi neste último ano tinha data e hora marcada para acontecer. A cada quatorze dias, sempre aos domingos, freqüentei com assiduidade às rodas de samba do Núcleo de Sambistas e Compositores do Cupinzeiro.
Apesar de os integrantes do núcleo serem muito competentes e o som ser de excelente qualidade, o que menos atraía neste ambiente era a música. Na realidade, o samba ali apenas celebrava algo maior!
Nestas rodas de samba havia uma diversidade de pessoas muito grande. O encontro de gerações, classes sociais e de grupos étnicos ocorria com harmonia, respeitando as diferenças em um espaço democrático e que era construído por todos.
O que fez do Cupinzeiro um ambiente tão especial foram as pessoas e naquilo em que elas acreditam. Ali, avesso ao que acontece em outros lugares, todos são iguais e encorajados a ter voz ativa, independente de suas origens ou mesmo grau de escolaridade. O espaço sempre foi livre para que as pessoas trocassem experiências, ainda que publicamente, sem que houvesse qualquer forma de repressão ou mesmo censura.
O importante ali era a unidade deste grupo, coeso em seus ideais. Gente preocupada em fazer um mundo melhor, sem segregação de qualquer ordem. Nestes encontros todos eram convidados a discutir e refletir a nossa realidade, que muitas vezes se mostra à nós de forma injusta. E a música, principalmente aquela feita nos morros, nas favelas, nos guetos, enfim, feita pelas camadas mais populares, atende a esse fim. Deste modo, o samba já denota em suas origens esse caráter crítico que lhe é típico.
A própria informalidade do espaço corrobora com o objetivo do projeto. Ninguém que ia pra lá estava simplesmente em busca do entretenimento proporcionado pela ótima música. As rodas de samba aconteciam de forma totalmente improvisada, dentro da casa de um casal de integrantes do núcleo. Eles abriam seu lar para que outras pessoas pudessem ir pra lá, simplesmente porque acreditavam no projeto.
Com pouca estrutura física para funcionar o Cupinzeiro jamais almejou lucrar com suas atividades. Era pedido aos que o freqüentavam apenas uma contribuição simbólica e que mal dava para custear as despesas com sua manutenção.
O Cupinzeiro conseguiu reunir todo tipo de pessoa. Gente humilde e gente importante, de crenças variadas, de diferentes cores, de regiões por vezes opostas, gente de uma diversidade tão rica quanto o nosso país. Pode-se dizer que o Cupinzeiro era, de certa forma, um retrato do Brasil. Basta acreditarmos que esta utopia chamada Cupinzeiro é possível de acontecer em nosso dia a dia e pode sim ser estendida à outras esferas!
Ao final de cada roda de samba todos se uniam num abraço coletivo, como que para selar o compromisso que temos com o nosso meio e celebrar as diferenças que fazem de um povo uma nação!
Aonde mais isso seria possível de ocorrer que não num terreiro de samba?
Homenagem ao Cupinzeiro
Autores: Edu de Maria / Bruno Ribeiro / Anabela / Ênio Bernardes
Um terreiro
duas mangueiras
um cupinzeiro
muita gente, muito samba
assim, na batalha e na conquista
com graça e com malícia
nessa vida de aprendiz
nesse canto brasileiro
tradição do meu país
aprendendo com meu povo
um modo de ser feliz
o samba é uma festa brasileira
é cultura verdadeira
que nunca vai ter fim
e é por isso que eu canto
a noite inteira
bem debaixo da mangueira
um refrão que diz assim:
"salve o samba brasileiro
abençoe esse terreiro
de samba, luar e cupim"______________________________________________________
Bibliografia
LENKO, K. & PAPAVERO, N. 1996. Insetos no folclore. 2ª ed. São Paulo : Plêiade/FAPESP, 1996. 468p.
_____________________________________________________Referência Bibliográfica
ANÔNIMO, 1971. Térmitas revelam tesouros. O Estado de São Paulo, 26 nov. 1971.
CONSTANTINO, A., 1927. Este é o canto de minha terra. São Paulo : Editora Hélios Ltda. 149 p.
MARCONI, M. de A., 1963. Cupim no folclore. Comércio de Franca, 7 de fev. 1963.


