quarta-feira, junho 16, 2004
Construindo a casa do Oscar
"A casa do Oscar era o sonho da família. Havia o terreno para os lados da Iguatemi, havia o anteprojeto, presente do próprio, havia a promessa de que um belo dia iríamos morar na casa do Oscar. Cresci cheio de impaciência porque meu pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava dinheiro para construir a casa do Oscar. Mais tarde, num aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o terreno da Iguatemi. Desse modo a casa do Oscar, antes de existir, foi demolida. Ou ficou intacta, suspensa no ar, como a casa no beco de Manuel Bandeira.
Senti-me traído, tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o braço contra minha mãe e sai batendo a porta da nossa casa velha e normanda: só volto para casa quando for a casa do Oscar! Pois bem, internaram-me num ginásio em Cataguazes, projeto do Oscar. Vivi seis meses naquale casarão do Oscar, achei pouco, decidi-me a ser Oscar eu mesmo. Regressei a São Paulo, estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o pior aluno da classe. Mas ao professor de topografia, que me reprovou no exame oral, respondi calado: lá em casa tenho um canudo com a casa do Oscar.
Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim. Quando a minha música sai boa, penso que parece música do Tom Jobim. Música do Tom, na minha cabeça, é a casa do Oscar."
Assim como a casa do Oscar, a viagem à Londres foi um processo de construção, e começou a ser concebido ainda em 1993. Nesta época fui apresentado a uma Londres de atmosfera sombria, misteriosa, mergulhada em crimes e enigmas, este, era o universo que criara Sir Arthur Conan Doyle e que começava a exercer um certo facínio sobre mim.
Nesta época, lia muitas histórias de Mr. Sherlock Holmes e ficava a imaginar o dia em que iria caminhar em Londres pela Baker Street e adentrar ao escritório, no apartamento 221 B, deste exímio detetive e seu fiel companheiro, o Dr. John H. Watson.
Ainda neste mesmo ano ingressei em um curso de datilografia. Só quem já o fez sabe o quão chato são as aulas no início: repetir exaustivamente os mesmos exercícios durante horas.
Ao final da primeira hora, por mais que não estivesse com sede, sempre ia beber água. Essa era a forma que encontrara como fuga! E toda semana esta rotina se repetia.
Nestas minhas fugas programadas não tinha muito com o que me distrair a não ser um mapa mundi que analisava detalhadamente. Ali, perto da cidade de Londres, passa o meridiano de Greenwich que é um ponto de referência para os fusos horários. Era inevitável não estabelecer qualquer comparação com a tradicional cidade londrina e o resto do mundo. Então, toda vez que olhava o mapa, centrava as atenções sobre a capital inglesa e dizia: ainda vou conhecer este lugar.
Mais tarde, já na universidade, senti a necessidade de fazer um intercâmbio e estudar a língua inglesa, porém a semente já havia sido plantada e o local já estava definido. Passei a aspirar por esta sedutora velha cidade chuvosa e cinzenta!
Agora, não mais queria apenas conhecer aquela Londres das histórias de Sherlock Holmes, mas fazer parte da cidade!
Distante o sonho de me mudar para as terras da rainha...
Mas há pouco mais de quatro anos, quando estava no terceiro ano da graduação, meus primos foram morar justamente em Londres, e, junto com eles, foi a promessa de que talvez um dia este antigo sonho viesse a se tornar realidade.
Agora, apenas um dia antes de partir para a terra do também biólogo Charles Darwin, atingi o meu objetivo, fruto de meu próprio esforço e trabalho árduo. É a coroação de um ideal perseguido com obsessão e muita obstinação!
A todos aqueles que me apoiaram nesta empreitada o meu muito obrigado!!!


